Ao contrário da lagarta que se transforma para ter os seus “15 minutos” de borboleta, nós, vivemos num constante entrar e sair de casulos, embora num primeiro momento, apenas vislumbrando a promessa de uma felicidade projetada.

Mas com o tempo, maior do que a expectativa destes momentos felizes, torna-se a serenidade de enfrentar novos casulos, novos ciclos. De exercitar nosso direito de ser e de nos sentir em movimento. E de não podermos mais abrir mão disto.

Obviamente, resistimos o quanto podemos, pois preferimos continuar lagartas a tentar o sonho da borboleta. O ego (a sombra) nos convence que a mediocridade da lagarta é melhor que a possível frustração da borboleta, mas o vazio – traduzido em alertas internos, que mascarados ou nãosoam cada vez mais alto – torna-se mais claro e presente.

Então, vencidos pelo cansaço, em um certo momento, resolvemos ver “que diabo de som chato é este” e abrimos a portinha… damos uma espiadinha lá fora (ou lá dentro)… e lá estamos nós, paralisados e anestesiados no casulo que tanto temíamos entrar. Pânico…. A consciência de que já estamos lá é aterradora! Cai por terra a ideia do controle.

O casulo é feito de espelhos… e como é feia a lagarta! Como dói a imagem refletida!

E de: – “Impossível que aquela lagarta seja eu, aquilo são os outros”; passamos para: “Será que sou eu? Ah, isto é que é se sabotar, agora entendi… se ver lagarta, sendo borboleta”…

Então, os argumentos não se sustentam depois de um tempo e nos revoltamos: – “Bom, se sou assim, me aceito… é o que posso ser e dane-se… quem me amar de verdade, vai me amar assim, não abro mão de mim!”

Até que caminhamos mais e finalmente concluímos: – “Peraí… eu me amo sim, mas não desta forma… eu não SOU assim, eu ESTOU assim… aliás, QUEM EU SOU?”

É quando então você descobre que o único jeito de sair, é se abrir, aceitar e confiar. E aí… você relaxa. E simplesmente se desencadeia o processo.

E você luta, resiste… esconde. Chora, se revolta, culpa… SE culpa. E depois se entrega novamente… porque estes processos são iguais a correnteza… você pode se segurar em alguns galhos no caminho, mas a partir do momento em que caiu no rio, fatalmente, irá correr com as águas que seguem seu curso e irá desembocar, ferido ou não, em algum lugar calmo…

A você, apenas cabe escolher como prefere trilhar o percurso…

E… pasmem… saímos vivos!

E assim, ainda capengas e sem muito controle das nossas próprias pernas, seguimos para o próximo casulo. E de cada um, mais inteiros saímos.

Um dia, a borboleta deixa de ser o sonho, o objetivo… a cada momento, podemos vislumbrar um pedacinho dela vencendo a lagarta e se eternizando dentro de cada um de nós.

E quando esta lucidez começa a atingir cada canto de nós mesmos, a sombra perde seu sentido. Uma vez que o sol passa por um cômodo, mesmo quando ele se vai e a escuridão chega, a memória da sua luz já se fez. No outro dia, ele volta de novo e assim vai, até que não precisamos mais de seus raios, pra saber a luz e o calor.

E a sombra se torna imprescindível, como avesso e referência. E “QUASE” inofensiva… pois agora já sabemos que ela é apenas uma ausência da luz.

A viagem não se torna menos dolorosa, as transformações não se tornam menos difíceis… mas agora, tudo tem um sentido. E mais, estamos no leme e apenas precisamos colaborar com o vento.

E então, lá estamos nós… prontos para amar e para sermos amados. E não porque brilhamos a borboleta. Mas sim porque nos demos a chance de ter asas e voar.

 

SP, 23.out.10